Gerseley Ivanick Mandinga Lopandza (25 anos), nasceu em São Tomé,formou-se em Administração Pública e é mestrando em Economia e Gestão aplicada ao agronegócio. Mais conhecido como Ivanick, no seu currículo profissional constam várias publicações em revistas científicas, sendo também autor do livro “Teses Poéticas sobre o pessimismo” e co-autor do livro “O que contam os sentidos”.
É filho de professores. A mãe é sãotomense e o pai é congolês, mas nunca visitou a terra natal do pai.
“Estou convencido que quanto mais visões do mundo uma pessoa tiver, menos hipóteses ela tem de agarrar dogmaticamente uma forma de representação da vida. A minha mãe aproxima-me de uma forma de pensar sãotomense, o meu pai é a representação do que seria um africano continental. Lembro-me de inicialmente ele usar roupas africanas que eu (na minha visão totalmente sãotomense), acreditava serem muito parecidas com batinas dos padres que via na Igreja da Sé. O meu pai é o meu pé na África continental, o meu pé na literatura francófona por inúmeras discussões literárias que tive com ele.” – conta orgulhoso.
Recentemente, brindou-nos com duas crónicas polémicas publicadas na Rádio Somos Todos Primos, que causaram reações extremas da sociedade sãotomense. Desde “adoro” à “quem é que esse gajo pensa que é”. “Eu sou muito sarcástico, e por essas ironias mordazes acabo não sendo muito bem interpretado. Alguém que lide comigo consegue ir um pouco mais além da mera aparência. Mas acho as discussões interessantes, evito dar opiniões em comentários para não empobrecer as discussões, prefiro ver as pessoas buscando as suas perspetivas. Algumas vezes, revelam-me coisas que nem pensava e depois fico intrigado com o poder da subjetividade.” – explica.
A primeira surpresa de Ivanick foi “A saga das feministas ou as solteironas na capital”, uma reflexão sobre a posição da nova geração de mulheres na sociedade, sobre o fato dos homens sãotomenses terem medo de mulheres inteligentes e independentes que não conseguem dominar. Já a segunda – “A tragédia dos sãotomenses brancos demais para serem negros” – explora o nosso complexo de inferioridade e a síndrome de eternos escravos. “Sou diariamente aconselhado a não escrever. Acho que eles têm razão, mas acaba sendo mais forte do que eu o impulso à escrita. A minha maior necessidade é a minha vontade de expressar-me. E acabo tendo reações incríveis dos outros que me pagam uma bebida ou de outros que dizem à amiga: “não fica com aquele rapaz, ele não é boa coisa.” Sempre que me expresso estou ciente de subir ao céu e cair no inferno… se todos gostarem, é sinal que estou fazendo errado.”

Ivanick afirma que quando lhe são apontadas falhas ou lhe fazem elogios em relação à sua escrita, fica muito feliz. “Ser lido em tempo de muitas distrações é honra de poucos.”
Perguntamos-lhe como é “não ter papas na língua” numa sociedade tão pequena e cheia de “disse que disse” como a sãotomense. “Passei por algumas experiências que me tiraram o medo da morte. Tive um amigo que o suicídio acariciou e eu escrevi um livro inteiro inspirado nele e recitei os poemas mais custosos da minha vida diante daqueles que seriam colegas e amigos dele na Praça de Obelisco em Redenção. Ele contou-me segredos e as suas frustrações, ele esperava um momento certo para se expressar, mas acabou sendo um suicida cuja voz não será mais ouvida.

Conto esta passagem para dizer que não tenho medo de ser enxovalhado, de ser queimado socialmente, porque a vida que vivo é só um sopro. A vida é uma experiência incrível que acabará a qualquer momento. Enquanto vivo o único compromisso que tenho é com a Verdade. Evidentemente, há quem não goste, e certamente, há quem adore.”
Ivanick diz que começou a escrever por causa das mulheres. “Talvez quem me incentivou nem se lembre: Airton Leite Ramos. Eu estava na quinta ou sexta classe. Reparei que todas as meninas que me tocavam nunca queriam saber de mim. O Leite contou-me do poder dos poetas com as palavras e como conquistaram facilmente as mulheres. Fiquei encantado! Quase gritei “Eureka” como fazem os cientistas. Descobri a minha pedra filosofal.”
Conta que passou dias à fio lendo desenfreadamente poemas em busca de uma sensibilidade que lhe permitisse conquistar as suas colegas. “Descobri que o meu vizinho Stallone e o amigo Barrocas andavam na Mediateca da Aliança Francesa escrevendo. Comecei indo também e aprendi a mexer no pacote office (motivação certa é tudo). Escrevia cartas todos os dias compulsivamente, escrevia poemas que não serviram de muita coisa na altura. As minhas amadas eram as minhas editoras. Quanto mais rejeitavam as minhas cartas, mais eu tentava uma linguagem mais eficaz. Não deu certo, mas na oitava classe conheci o Guedes e a sua turma de finalistas da décima primeira classe da área C. Ele apresentou-me alguns livros de filosofia. Tinha o pessoal do MK, principalmente Frederick Lima (Jacaré) com quem brincava de rimas e deu-me forças para continuar escrevendo. Finalmente, na nona classe, a professora Petra Aurora (a primeira mulher a achar os meus poemas decentes). Muitas coisas fizeram-me continuar a escrever e a leitura voraz colocou a cereja no topo desse bolo.”
Mas apesar do bichinho da escrita, escolheu outras áreas na Universidade. “Curiosamente eu sempre saí-me bem em diferentes áreas. Como muitos, após terminar o décimo segundo ano escorreguei no Limbo da corrida por bolsas. Queria estudar fora e diariamente os meus amigos escapavam-se da ilha e eu sentia-me mais só. Talvez uma ilha na ilha. Como era um frequentador do Centro Cultural Brasil-STP fiquei sabendo da vaga para estudar na UNILAB e dessa forma, escolhi Administração Pública.”
A família incentivou-o a estudar algo que lhe garantisse o futuro. “Os meus pais acreditavam ser mais relevante para o país. Lembro-me de o meu irmão dizer-me quando sugeri Filosofia que “todos somos filósofos, e tu poderás ser filósofo, aliás, já és… mas precisas de ganhar dinheiro – faça administração”. Atualmente, não sou filósofo nem ganho dinheiro.” (risos)
Mesmo assim, o jovem Ivanick não desistiu do que gostava. Fez várias disciplinas de filosofia, antropologia e sociologia noutros cursos como aluno externo. Foi bolsista de pesquisa em Nietzsche e conheceu amigos da área de Humanidades, que lhe iluminaram em muitas questões. “O meu ilustre professor de História de Direito (Alberto Paulino) dizia e bem:” Quem só do direito sabe, nem do direito sabe.” – o mesmo vale para Administração Pública. Certamente, não foi muito diferente no mestrado. A escolha deveu-se a falta de escolha e a situação em que estava. Comecei não gostando mas achei interessante estudar Economia e Gestão Aplicada ao Agronegócio. Os meus pais disseram que é o futuro outra vez, talvez tenham razão, e deve ser um futuro bem longínquo dada a minha pobreza material.”
No dia 29 de setembro, Ivanick vai subir ao palco do TEDxSãoTomé, no Museu Nacional, para falar sobre como a estética do cinema leva-nos ao conhecimento de nós próprios.
“O meu foco é no comportamento apreendido após uma sessão de longa metragem ou curta metragem. Pense num cenário simples: toda a família numa manhã de segunda-feira, tomando pequeno almoço e a mãe na cozinha preparando o lanche da escola do menino mais novo e os outros irmãos brincando uns com os outros à mesa e o pai pede mais calma para terminar de ler o jornal. Essa cena comum está na cabeça de todo mundo que pensa em começar uma família. E quem já tem uma família está ciente que isso sequer acontece e talvez se sinta culpado por isso. A verdade pode ser bem diferente disso! Essas realidades cinematográficas, às vezes, são construídas por quem quer vender uma torradeira ou leite.”
Dos talks do TEDxSãoTomé que viu, Ivanick ficou encantado pelo talk de Dário Pequeno Paraíso – “A mudança começa no teu coração”. “Ele falava sobre o que seria São Tomé e Príncipe a partir de uma visão de fora. Talvez por ter ficado surpreso por conhecê-lo pessoalmente e não esperar essa sensibilidade mística pela ilha.”
Quisemos saber como é o São Tomé e Príncipe dos seus sonhos. “Eu imagino um STP onde haja pouca intervenção governamental no dia-a-dia das pessoas. É inocência achar que entendemos de todas as variáveis económicas e forçamos pessoas a agir de acordo aos nossos preceitos de certo e errado.
Historicamente a nossa nação socialista baseou-se na crença de que um grande irmão no Estado resolveria todos os problemas. Mas claro, os nossos grandes irmãos são humanos demais para possuir zelo com dinheiro alheio e não favorecer os seus verdadeiros irmãos de sangue. Em algum momento, enquanto o Estado brincava de guru, o vendedor de pão era o maior sedutor nacional. Filas intermináveis para comprar pão, sessões de mamão cozido; a nacionalização das roças deu o último soco no estômago da economia insular.

Certamente, STP não é um problema simples, é um país assistemático. Tudo o que você aprendeu sobre economia não serve para muita coisa. O que precisamos é de consciência que se precisa deixar as pessoas apostarem em fazer aquilo que querem sem temer as finanças e algum burocrata que brincará de esconde-esconde com o seu alvará. Isso é um problema realmente antigo, herdamos vícios coloniais de que o cargo é a pessoa e ela se sente endeusada e obriga todos a chamá-la de doutor sob pena de não prosperar nas ilhas.
Para ilustrar melhor o meu pensamento desafio qualquer um a questionar um sãotomense se ele prefere 50 mil euros para começar um negócio ou um emprego no Banco Central. Ele vai preferir certamente Banco Central, pois sabe o sofrimento que vai passar como empreendedor.
Com isso a nossa produtividade baixa e o Estado fica mais gordo até ao dia em que não terá como introduzir mais pessoas ou pagar os salários. Há décadas que chamamos de ajuda externa o que é dívida pública. O que fazer? Intervir menos, não cobrar impostos aos jovens empreendedores e reformar o jurídico para criar incentivo para os nacionais que queiram investir. Apenas isso seria um ótimo começo. Depois tem a nossa ética egotista, segundo a qual cada um aceita qualquer terror nacional desde que seja beneficiado. Al Qaeda não teria problemas aqui, em cada esquina, um sãotomense está disposto a vender o país.”
Ivanick disse ao STP Digital que se pudesse gostaria de ter o poder da super resolução de problemas. “Por exemplo, ao detectar cancro em alguém, compreenderia a sua dimensão e chegaria a sua cura. Do mesmo modo olharia para a democracia de qualquer país, entenderia porque falha e saberia aplicar as soluções certas para cada lugar.”




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