Ele entrou na sala muito assustado. Olhos arregalados, mãos entrelaçadas e semblante carregado, podia-se dizer que estava com medo. Estar perante um juiz não deve ser fácil, mas quando me viu o seu pequeno e assustado rosto suavizou um pouco.
Olhou para mim, olhou-me dentro dos olhos como quem pede ajuda e eu conectei-me de imediato com ele. Gostei dele nesse momento.
Senti-o como se fosse um dos nossos. E era. E é.
Não o conhecia, nunca o tinha visto na minha vida. Não sabia sequer a sua nacionalidade.
Fui chamada para servir de intérprete porque aparentemente ele não sabia falar português.
A sala esta fria. Dois polícias, uma juíza, uma procuradora, dois escrivães, um advogado, eu e ele.
Ele. Ele tremia. Até eu tremia. Acho que ninguém se sente confortável perante um juiz.
Tribunal soa a punição.
Ele é tão novo, tão franzino e estava tão cabisbaixo, não olhava em frente, mas os nossos olhares cruzaram-se vezes sem conta.
Seu crime? Ter permanecido ilegalmente em Portugal. Veio com um visto para participar num evento e acabou por ficar.
Segundo ele a mãe, o pai, irmão mais e a avó vivem em Portugal desde 2014. Ambos trabalham, têm contrato e têm a situação regularizada, pois estão legais no país.
Ele não regressou porque quer estar junto dos pais e do irmão. Diz ele que em São Tome e Príncipe já não tem ninguém, a sua família nuclear está toda cá.
Sabe que não devia ter ficado, mas as saudades eram muitas, a solidão era muita. Essa foi a única maneira para não regressar ao país. Tem a perfeita noção que errou.
Ele sabe falar português, acredito que o medo de ser deportado o tivesse bloqueado.
Respondeu as perguntas todas. Falou a verdade. Falou com o coração.
E quando deixamos o coração falar conseguimos atingir o coração de quem nos ouve.
Deixou que as suas palavras tomassem conta da sala de audiências.
Falou das saudades que tinha dos pais, que sentia-se triste, abandonado e sozinho. Que viu nessa viagem uma oportunidade de se juntar a sua família. A sua querida família.
Quando pensamos em tribunais, juízes, procuradores e advogados, a nossa memória leva-nos para os filmes norte-americanos, em que os agentes da justiça são implacáveis e duros.
Não foi o caso. Por serem mulheres e talvez mães tanto a juíza como procuradora olhavam para ele de forma terna.
Senti isso…
E a medida que elas iam falando e questionando aquela lágrima atrevida ia caindo no canto do meu olho. E lembrei-me do cota Bonga e da sua música:
“Tenho uma lágrima no canto do olho”.
E eu tinha não só uma, mas muitas lágrimas no canto do olho. Tentei disfarçar, mas não consegui. Fiquei ali sentada com o coração apertado a olhar para ele e a pensar na aflição dos pais que estavam do lado de fora sem saber o que poderia acontecer ao filho.
Ainda tive tempo para ficar zangada e revoltada com os políticos e governantes do meu país por não conseguirem pôr o país “comme il faut”,por obrigarem as pessoas a abandonar o seu “ chão” em busca de vida melhor, por obrigarem pais e filhos a viverem separados.
Depois tive um rasgo de discernimento, a imigração é mesmo assim. Tem os seus desafios e contratempos.
No final sorri, tudo se resolveu. Ele vai poder ficar aqui com os seus pais.
Olhei para ele e senti a sua alegria e alivio como se fossem meus. No fundo não fiz nada. Mas recebi tudo.
A justiça funcionou, mas a empatia foi crucial nesse caso.




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