Entre tintas e pincéis com Valdemar Dória

Numa segunda-feira, o artista plástico Valdemar Dória recebe-nos em casa da sua mãe, onde está a passar férias. Já não visitava São Tomé e Príncipe há 5 anos e nos 15 dias que tem cá decidiu preparar uma exposição.

Faltam apenas 4 dias para o dia da inauguração da sua exibição na Aliança Francesa, que será justamente no dia anterior ao seu regresso para Lisboa. Valdemar está agitado, um tanto por estar a trabalhar em algo diferente e também por sentir que o seu tempo em São Tomé está a esgotar-se.

Com gotas de suor no rosto, consequência do intenso calor que se faz sentir na cidade de São Tomé, ele fala-nos do motivo de estar a utilizar como telas objectos como mochos, gamelas, banquinhos, entre outros.

Enquanto pintava um banquinho de madeira, Valdemar, que já assinou como Tobias Amerika, conversou com o STP Digital e contou como está a ser este breve regresso à terra que o viu nascer, fez o balanço de uma carreira de mais de 20 anos ilustrada com cerca de 30 exposições colectivas e 15 individuais. Tem exposto principalmente em Portugal, São Tomé e Príncipe e Irlanda, estando representado em colecções privada em Angola, São Tomé e Príncipe, Irlanda, Inglaterra, Brasil, Portugal, Canadá e Espanha.

Participou nas Bienais de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe em 2004, 2006, 2011, 2013 e em 2015 na V Bienal de Culturas Lusófonas em Odivelas, Portugal.

Valdemar é membro fundador da Plataforma Cafuka onde integra e desenvolve projectos diversos no domínio das artes plásticas. Sempre simpático e sorridente, o artista falou também sobre as suas influências artísticas e sobre as coisas que o chocam em São Tomé e Príncipe.

STP Digital: Onde foi buscar inspiração para esta exposição que brevemente será apresentada ao público santomense?

Valdemar Dória: Em objectos quotidianos como a gamela redonda, o mocho, banquinho, pedaços de madeira. Escolhi estes elementos porque fizeram parte da minha infância, estou a revisitar uma fase importante da minha vida. Está tudo conectado a algo mais profundo. Como um estrangeiro em Portugal, perdi a minha identidade santomense ao fim de alguns anos e com este trabalho quero valorizar o que nós temos, valorizar aquilo com que cresci algum tempo e depois perdi. É um dado adquirido nós acharmos que tudo o que temos será sempre o mesmo. Mas não. As coisas vão e vêm. E trata-se de valorizar aquilo de que sinto falta.

STP Digital: Esta viagem à sua infância está relacionada com o momento que está a viver agora?

Valdemar Dória: Tem a ver com a memória, também com a fase que estou a atravessar agora na minha vida. Com o regresso à terra depois de algum tempo. Já estive longos períodos sem visitar São Tomé. Saí daqui com 2 anos (em 1978), voltei em 2004, depois em 2011 e agora 2016. Portanto, é bom voltar a ter contacto com coisas que já fizeram parte do meu quotidiano.

STP Digital: Nestas idas e vindas, o sentimento por São Tomé e Príncipe é o mesmo?

Valdemar Dória: Não, por acaso não. Porque eu venho sempre com a ideia de que vou voltar para o país onde vivo e não o país onde nasci. Os sentimentos variam. Ok, vais de férias, ficas lá um mês e ao fim de 15 dias já conheces muita gente, ao fim de 20 quando achas que te estás a integrar, 10 dias depois tens de te ir embora. Tudo é muito rápido, parece que o tempo não é suficiente para se aproveitar os momentos e as pessoas.

STP Digital: Mudar-se para cá um dia faz parte dos seus planos?

Valdemar Dória: Por enquanto não dada a natureza do país em si.

STP Digital: O que o choca em São Tomé e Príncipe?

Valdemar Dória: (gargalhadas) Aquele mercado! Tanta gente que podia fazer, aliás é paga para fazer algo pelo país e não faz nada. Choca-me ver a população que se habitua ao lixo, habitua-se à porcaria e à muitas outras coisas que não se deveria habituar. Eu lembro-me que antigamente não era assim. Lembro-me de São Tomé ser uma cidade super limpa. Não havia luz nem água, mas era um sítio limpo. Agora é um caos total tanto a nível urbanístico como a nível automobilístico: carros, motas, bancos em todo o lado… É uma confusão e tudo no centro da cidade! Isto está a crescer, há milhares e milhares de crianças por aí, que vão crescer e não terão espaço. Não existe urbanização. É isso tudo que me choca, mas o que mais me choca ainda é que ao fim de 15 dias já me habituo a isso (gargalhadas).

STP Digital: Que balanço faz dos seus 22 anos de carreira?

Valdemar Dória: Sinto que evoluí. Vejo trabalhos que fiz há mais de 20 anos e os que faço hoje: o traço mudou, melhorou, já consigo expressar-me melhor de uma outra forma, há uma melhor coordenação com as cores.

STP Digital: Pode-se verificar que gosta muito de utilizar o laranja, o vermelho e o preto nas suas obras. Porquê?

Valdemar Dória: Isto tem a ver com a memória também. São cores da terra e lembro-me que por volta do ano 86/87, no Prédio do Banco, onde estão uns painéis do Malangatana e outros artistas santomenses… aquela força vinda das cores ficou-me na memória. Daí que uns tempos depois ao ver um quadro de Matisse, no qual ele utilizou muito bem as cores preta e azul, eu experimentei o laranja e o preto, o vermelho e o preto… É uma mistura do passado e do presente.

STP Digital: É possível viver da arte? Que conselhos daria aos aspirantes a artistas plásticos?

Valdemar Dória: Eu gostaria de viver da arte. Mas para se viver da arte temos que nos assumir como artistas. Durante muito tempo não me assumi como artista. Assumi-me como alguém que sabia pintar e desenhar muito bem. Cá em São Tomé, há muita gente que usa a arte como forma de escape ou como forma de sobrevivência. Não tenho nada contra os pseudo artistas desde que eles saibam realmente qual é a sua motivação e não se enganem a eles próprios, não se limitem a copiar outros artistas e assumam as suas influências.

STP Digital: E quais são as suas influências?

Valdemar Dória: Malangatana, Matisse, Dali, Picasso, Cruzeiro Seixas – um surrealista português.

STP Digital: Que artistas considera embaixadores da arte contemporânea santomense?

Valdemar Dória: Temos antigos e novos embaixadores. Existem os embaixadores vitalícios como o Ismael Sequeira, Armindo Lopes, Zemé, Guilherme Carvalho e Nezó. Da nova geração temos o Kwame Sousa, René Tavares, Osvaldo Reis, Adilson Castro e outros

Entrevistado pela
Katya Aragão

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karlley.frota

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