EXCLUSIVO: STP Digital entrevista a estilista Tukaiana Simões.

A estilista Tukaiana Simões nasceu em 23 de Abril de 1977 em Angola. Viveu a sua infância entre a terra natal e Portugal, mas em 1983 foi forçada a mudar-se para Lisboa por causa da guerra civil. Tukaiana é uma mulher de personalidade forte, que combina com o seu signo – Touro. Descreve-se como nómada por natureza, romântica, positiva e aventureira! É mãe, filha, amiga, apaixonada por moda, decoração, música, comida e pelo mundo. Para a estilista, África é MÃE, Europa PAI, Ásia o ESPÍRITO e a América o FILHO. No dia 21 de Março do ano corrente mostrou pela primeira vez ao público são-tomense o seu trabalho. O STP Digital convida-lhe a descobrir mais sobre esta guerreira que tem imenso orgulho na sua terra, na sua família, no seu passado e que escolheu São Tomé e Príncipe como seu lar.

Há quanto tempo vive em São Tomé?

Vivo em São Tomé há cerca de um ano, mas não foi este o primeiro contacto que tive com o País, estive cá pela primeira vez em 2009 e lembro-me que adorei o primeiro contacto por causa da imensa força da natureza, das cores, dos cheiros, dos sabores também e claro, tudo isso faz-nos pensar em voltar principalmente quando temos uma vida mais agitada e queremos carregar energia pura.

Porque é que decidiu viver cá?

Em primeiro lugar porque São Tomé é um País calmo, a família para mim é a minha principal prioridade e apesar de encontrar algumas dificuldades, tenho sempre mais tempo para os meus filhos, São Tomé também é um excelente local para trabalhar na parte da concessão de peças pois aqui a manufacturarão destas é mais simples e mais detalhada por este ser um mercado ainda muito pequeno.

O que tem a dizer sobre o mundo da moda cá?

Em São Tomé existe a vantagem de poder criar algo novo por ser um mercado ainda muito virgem! Na minha opinião é um pais onde a criatividade e os ritmos imperam apenas faltam as directrizes certas e o know-how para abrir portas a novos criadores.

Temos alguns designers como a Gorette Pina, a Katia Silva, a Roselyn entre outros, não quero esquecer ninguém, depois o Nino, o Celso Coelho ou mesmo a Dona D que são óptimos costureiros todos eles fazem um excelente trabalho e eles são protagonistas desta mudança.

No que diz respeito ao público eu acho que começa a existir um novo movimento no qual algumas pessoas deixaram de ver a moda como um segmento no mercado apenas ligado há compra da roupa em si ou seja a uma frase de Coco Chanel que diz ” A moda passa de moda o estilo jamais”.

Quais as experiências mais marcantes na sua trajectória, desde que começou a trabalhar com moda?

Todas as experiências são marcantes pois é mundo com um sentido muito critico e onde a competição por vezes não olha “a quem”… o bichinho da costura foi-me dado pela minha Avó, desde pequena que me ensinava a cortar, alinhavar, costurar, bordar… bem, com 17 anos devo ter vendido a minha primeira peça há uma amiga e foi um pouco constrangedor ver alguém com algo que crias-te vestido. Fiz Vitrinismo em Lisboa na Escola de Comercio, trabalhei com o fotógrafo João Raul na parte de concessão de objectos para produção fotográfica, com ele também fiz alguns trabalhos para televisão e aprendi imenso acerca de esse mundo visual conheci alguns manequins com estes as técnicas, conheci pessoas talentosas, histórias divertidas, isso foi a anos… depois ingressei numa carreira diferente e este bichinho acaba sempre por acordar e espero que se sigam mais experiências mais ou menos marcantes, até porque esta foi a minha primeira colecção, o importante é trabalhar.

Como é o seu processo criativo?

O meu processo criativo depende muito do clima… Estou a brincar!

É logico e habitual em todos os designers começarmos com uma ideia e desenvolvermos, com base em pesquisas acerca de materiais que podemos ou não utilizar, visto sempre primeiro no meu pensamento alguém que é a minha inspiração e a partir dai é só deixar que a minha imaginação faça aquele detalhe para que a peça seja ou tenha algo diferente, 3 pontos importantes no meu processo são: Observar ou inspiração, agrupar ideias e por fim desenvolve-las.

Gosto de utilizar tecidos de padrão africano, sou africana, não nego as minhas raízes, mas como sou uma mulher nómada e uma cidadã do mundo faço uma fusão de várias experiencias no que crio entendo que moda seja uma forma de fazer política também e de mudarmos as mentalidades, porque é que uma mulher não pode usar em Africa uma peça com padrão Inca e corte de Kaftan!?faço varias pesquisas em livros, utilizo suportes digitais ou experiencias passadas. Acho que a mistura nos torna mais tolerantes e menos preconceituosos em relação a diferentes culturas o meu processo criativo tem essas bases, vestir a mulher que será notada não apenas pela peça que usa, mas por ser única, tem um carácter democrático é livre de escolhas sem deixar de ser sofisticada.

E como são convencionadas as peças? Quem faz o corte – e depois como é que o processo se desenvolve?

Como estou a construir ainda o meu Ateliê, faço o desenho criativo e o corte de algumas das minhas peças, a manufaturação é feita com ajuda de outros costureiros locais pois não tenho todos os materiais necessários para formar a minha equipa. Quanto a concessão de algumas peças como cintos, botões e alguns detalhes tenho sempre a participação de artesãos São-Tomenses pois nessa parte do processo gosto de usar matérias mais da terra onde estou e ter também uma outra opinião para que tudo seja mais detalhado.

O seu trabalho destaca se por uma simbiose entre o design oriental e o padrão africano. Como surgiu essa ideia?

Eu sempre amei a cultura oriental, como sabem em Luanda há uma fusão muito grande entre as etnias oriental e africana, convivemos juntos e fomos criando laços, criei uma peça que guiou o resto da colecção vesti uma mulher que não se importa de mostrar uma fusão que fala uma história, primeiro ela é romântica pois sou apaixonada pelos anos 40 e existe uma forte tendência dos anos 40 nas peças pois os pormenores básicos tem as técnicas dos godés , dos machos e as saias de grandes pregas abaixo do joelho, e depois o corte e tendência nas mangas, os kimonos, as golas, as calças largas, com base no corte militar e em roupas de luta oriental , tornei esta mulher também uma guerreira. Então esta mulher é sofisticada, forte mas também tem um lado elegante, jovial e delicado de uma forma solida.

Qual é o público-alvo das suas criações?

São todas as mulheres genuínas, tolerantes, lutadoras, livres, independentes, sociais, simpáticas, criativas, todas as que sabem que beleza tem a ver com o teu estado de espírito.

Mas também gosto de criar para outros públicos-alvo como músicos, desportistas e eventos sociais.

Faça um balanço da primeira colecção – Xikita – , apresentada em São Tomé no dia 21 de Março 2015?

Eu fiz a apresentação como convidada no desfile do Celso Coelho, de algumas peças da coleção Afroriental e também da Coleção Sal Negra que é uma colecção que desenvolvo de Beachwear mas a colecção Xikita tem um total de 30 peças que serão apresentadas brevemente. A apresentação foi muito breve e não teve a organização detalhada pois não foi direcionada apenas para mim, mas acho que foi benéfica para colocar o meu nome no mercado em São Tomé, pelo menos tive olhares curiosos e acho que o importante é o objetivo final.

Onde é que se pode comprar as suas peças?

Basta contactar-me pois ainda não tenho o site, ateliê e catálogo em análise e construção. Sal Negra ou mesmo da Xikita.

Quanto tempo, em média, demora uma peça elaborada para ser produzida?

Algum tempo mas tudo depende do tipo de material usado e a complexidade nos detalhes não quero criar quantidade mas sim qualidade. Alguns materiais como os tecidos são importados por causa da qualidade e é lógico que assim o cliente compra uma peça única.

Tem influências de algum estilista? Tem algum de que gosta mais?

VARIOS… Roberto Cavalli, Tommy, sou apaixonado por roupa… Issey Miyake, Jonh Galliano, gosto de Designers angolanas como a Rose Palhares, a Nadir Tati, Portugueses o Nuno Gama, Dino Alves por ser diferente, Brasil, Preciosa que é bem a minha fusão entre outros.

Planos a curto prazo?

Quero continuar a trabalhar só isso e ter saúde e força para cuidar das pessoas que amo.

Estou a trabalhar em um projecto, pediram-me algum sigilo ainda por isso não posso divulgar, mas é algo que já acontece em São Tomé há algum tempo.

Como define beleza?

Beleza… beleza exterior é muitas vezes supérflua admito que entre nós seres vivos exista um conceito de interpretação acerca da beleza um pouco subjectivo, “a beleza está no olhar de cada um de nós” ela tem mais a ver com harmonia e equilíbrio do que com qualquer outra coisa, por isso se diz que “beauty comes from inside out”.

Um sonho?

Muitos sonhos, outros são inalcançáveis gostaria de voltar o tempo atrás para dar o abraço forte que não dei, gostaria de ter aprendido mais com quem já não posso aprender, mas acho que se esse sonho não posso realizar ao menos tento realizar os sonhos que sonhei com ela enquanto nela existiu vida.

Entrevistada pela
Katya Aragão

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karlley.frota

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