Pelas palavras de Aoaní d’Alva


Da crónica “uma estrela no céu”, sobre Alda do Espírito Santo. “Muitas vezes calada interrogava só com o olhar, aquele olhar que penetrava na alma e tinha o poder de fazer confessar qualquer travessura. Era um olhar carregado de sabedoria, uma sapiência 48.

Aoaní d’Alva

humilde, de quem viveu muito, mas nem por isso se endureceu ou empobreceu espiritualmente. Ela era acima de tudo professora, ensinava mesmo quando estava calada, porque o silêncio também fala. Era uma biblioteca que fazia questão de ser consultada, procurada, ouvida.” In Miopia Crónica, pag.47.

A são-tomense Aoaní Dias Neto d’Alva nasceu em 7 de Junho de 1984 e exerce jornalismo em Angola. Acaba de lançar o seu primeiro livro – Miopia Crónica -, que em breve será lançado em São Tomé e Príncipe. Para descobrir mais sobre esta jovem que não tem medo de dizer o que pensa leia a entrevista e visite “O Mundo de Aoaní” – www.aminhalmaempoesia.blogspot.pt/2008/06/saudade-dos-verdadeiros-amigos.html.

“Miopia Crónica é um apanhado de crónicas, na sua maioria publicadas na coluna homónima, no semanário angolano Novo Jornal. São retratos fictícios de uma realidade não muito distante. Pinceladas de mentira sobre uma tela de verdade. Histórias vistas, ouvidas ou vividas pela autora, contadas de uma forma que a mesma pretende simples. Prosa directa sem perder a delicadeza da poesia.”

1) Como surgiu o desejo de lançar um livro?

Aoaní d’Alva: Percebi que muita gente pedia para reler as crónicas que eu publicava semanalmente no “Mutamba”, o caderno de cultura do Novo Jornal, então, resolvi junta-las todas num livro. Passei por um processo de triagem e correcção muito interessante, em que tive uma ajuda crucial da Isabel Bordalo, minha colega do jornal, decidi-mos juntas, quais crónicas publicar, quais pôr de parte. A Isabel é a minha mentora no jornalismo, tinha que ter a ajuda dela.

2) Qual é o tema principal de Miopia Crónica?

Aoaní d’Alva: Não há um tema principal, creio. Aliás, o tema principal, são as crónicas! Heheheheheh O tema principal é o dia-a-dia, as vivências minhas e dos outros que vou captando por onde passo e onde estou.

3) Como fez a escolha do título?

Aoaní d’Alva: O título parte do facto de eu pensar que escrevo sobre coisas que as pessoas tendem a não ver, ou a não querer ver. É o título da coluna no NJ e acabou por ser a escolha óbvia para título do livro.

4) Quanto tempo levou a compor o livro?

Aoaní d’Alva: Tendo em conta o processo de compilação, escolha, tratamento, correcção, entrega à editora, escolha de capa, testes, provas, etc.… Levou cerca de um ano até ele “vir cá para fora”.

5) Já está a escrever outro livro?

Aoaní d’Alva: Ainda não! Porquê tanta pressa? Hehehehe! Confesso que tenho algumas ideias, pensei em algumas coisas, mas não, ainda não estou a escrever nada.

6) Qual a maior dificuldade que enfrentou para publicar o seu livro? Como superou essa situação?

Aoaní d’Alva: A minha maior dificuldade com este processo todo foi a gestão. Não conseguia gerir a minha própria ansiedade! Ahahahahahaha! Não houve grandes dificuldades. Na verdade, acho que o facto de ser jornalista e já conhecer o pessoal ligado à editora ajudou. Mas creio que na Chá de Caxinde são muito receptivos à novos autores e isso também ajudou muito.

7) Como é que se sente em relação à receptividade das pessoas a sua obra?

Aoaní d’Alva: Acredito que tem sido boa a receptividade. Tenho ouvido criticas, na maior parte das vezes, construtivas. As vezes é duro de ouvir, mas regra geral, oiço e penso sobre o assunto, avalio se há alguma lógica na opinião ou se é só uma questão de “gosto/não gosto”. Deito fora o que é “lixo” e guardo o que me faz crescer.

8) E-book ou impresso? Porquê?

Aoaní d’Alva: Impresso! Porque eu acho que os livros em papel têm uma coisa especial, o cheiro, as texturas, o contacto… É especial. O electrónico é prático. “Punto e basta”!

9) Filme ou livro? Porquê?

Aoaní d’Alva: Livros, sempre livros! Porque nos fazem viajar na imaginação, recriar as coisas que lemos a nossa maneira. O filme é aquilo e não há mais por onde ir. E regra geral, os filmes baseados em livros, ficam muito aquém dos livros! Muito aquém, mesmo!

10) Tem algum autor são-tomense preferido? E estrangeiro?

Aoaní d’Alva: Tenho vários, nacionais e internacionais.

11) Fale-nos um pouco do seu lado bloguista.

Aoaní d’Alva: Existe um lado bloguista? Fiquei a saber agora! Hahahahahah Acho que sou uma só, o meu blog é um reflexo de mim e da maneira como vivo. São textos, opiniões, pensamentos meus. E a falta de assiduidade na actualização é uma mistura de factores. Misturem uma pitada de indisciplina, com um bocado de pouco tempo e uma dose de “vou esperar ficar inspirada”, e têm um resultado… Caótico. Assim é “O mundo de Aoaní”, um caos organizado.

12) Como é um típico dia na sua vida?

Aoaní d’Alva: Acordar cedo, ficar na cama até ao último minuto, correr para sair de casa a tempo, trabalhar (fazer contactos, falar com pessoas, escrever, escrever e escrever), voltar para casa, ler, entrar na internet e dormir. Vez por outra aparece uma ida ao cinema, um jantar, um copo, para quebrar a rotina.

13) Por causa da sua profissão está sempre a viajar, portanto deve ter muitas histórias para contar. Quer partilhar alguma?

Aoaní d’Alva: Há tantas! Mas certamente as viagens que me rendem mais histórias sãos as feitas pelo continente africano! ADORO! Nós temos muitos problemas, é certo, mas também temos tanta coisa boa! O pouco que conheço do continente deixa-me apaixonada. Os contrastes, as perfeições dentro das imperfeições, as cores, os cheiros, as cores, os sabores … Eu adoro ser africana e mais, adoro viver em África.

14) Qual é o seu maior sonho?

Aoaní d’Alva: Há algum tempo que deixei de ter “sonhos”. Tenho objectivos. Traço metas e estratégias para os conseguir alcançar. Uma coisa que me vai deixar realmente feliz quando conseguir, é conhecer TODOS os países do continente africanos. Já vou nos seis, espero chegar aos 52 em 10 anos.

15) Se pudesse ter um super poder, qual seria? Porquê?

Aoaní d’Alva: Não sei, não faço ideia! Acho que todos os super poderes, têm duas faces. Se por um lado são bênçãos, por outro são maldições. Prefiro ser “normal”, embora eu tenha muitas dúvidas quanto a essa normalidade! hehehehe

16) Vive em Luanda. O que sente cada vez que visita São Tomé?

Aoaní d’Alva: Como se tivesse entrado na cápsula do tempo, algumas vezes!!!! Há coisas e pessoas que não mudam. Sinto que voltei para casa. Mas a verdade é que quando volto para Luanda sinto que voltei para casa também! É estranho, mas acontece-me.

17) Que dica deixa para os aspirantes a escritores?

Aoaní d’Alva: Ler muito, muito mesmo e escrever bastante, sempre. Elogio da família nem sempre é o mais fiável, mas ouvir toda a gente também não é a solução. Escolha pessoas-chave e oiça com atenção. Não altere as coisas só por assim lhe disseram, o ideal é entender o que lhe dizem e isso fazer algum sentido para si, se não o texto não é seu, é dos outros.

Escrito por
Katya Aragão

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