A partir desta semana publicaremos uma série de cinco capítulos do artigo de opinião do engenheiro Luís Paquete d’Alva Teixeira, sobre o processo de povoamento das ilhas de São Tomé e Príncipe. Todas as segundas, os leitores do STP Digital poderão ler um capítulo novo e aprender mais sobre a história do nosso país.
Capítulo I: A Origem da População de São Tomé e Príncipe
A história dos descobrimentos das ilhas de São Tomé e Príncipe está associada ao momento do Renascimento, na Idade média do século XV, etapa de grandes avanços das teorias, técnicas e tecnologia no domínio marítimo, pois podemos considerá-la o surgimento da marinha moderna. Esta Era, é a da expansão do mundo Europeu aos demais continentes, como a Ásia, América e África, designada a etapa dos Grandes Descobrimentos.
Nas Américas, as populações autóctones foram dizimadas por consequências das guerras, novos hábitos e costumes dos invasores, assim como das epidemias que assolavam na altura o continente Europeu e chegaram a este continente que dista da Europa muitos milhares de quilómetros. De acordo com os dados da população autóctone do continente Americano, muitos habitantes foram dizimados devido a epidemia da varíola trazida pelos descobridores. Por outras palavras a varíola foi uma das principais responsáveis pela dizimação da população nativa da América após a importação da Europa no século XVI com Cristóvão Colombo.
No continente Africano, a questão não foi contrária, embora com algumas adversidades tais como a colonização dos territórios, a compra e venda dos escravos da África subsariana como destino de mão-de-obra barata para as plantações de cana-de-açúcar e milho no continente Americano. Centenas de milhões de Africanos cruzaram o Atlântico e foram levados para as Américas. Neste período da evolução náutica, surgem os descobrimentos e ocupações de muitas Ilhas dos continentes Americano e Africano, transformando essas terras em excessiva miscigenação (mélange antropológica).
São Tomé e Príncipe a mélange antropológica estão constituídas por povos oriundos da África, Europa, Ásia, América, em momentos distintos. De acordo com fontes históricas, em carta datada de 29 de Julho de 1493, o rei D. João II, nomeou Álvaro de Caminha donatário da Ilha de São Tomé, em que teve outros privilégios especiais, tais como a compra de escravos Africanos, alguns europeus criminosos, degredados e os chamados cristãos – novos ou sejam os recém Judeus.
Pois na sequência da Inquisição, em 1492, quando os reis católicos Fernando e Isabela, expulsaram toda a população judia da Espanha fizera com que no final século XV, os judeus compunham entre 10-15% da população de Portugal somando cerca de 50 mil e os quase 120 mil que tinham cruzado a fronteira neste período.
Estes judeus considerados refugiados pelas autoridades portuguesas, o Rei de Portugal na altura, lhes deu uma oportunidade que era o pagamento de 2 escudos por cada refugiado para que pudessem permanecer em Portugal por 8 meses. O fim da permanência do prazo os mesmos eram ordenados á serem vendidos como escravos.
As crianças judias com idades compreendidas entre os 2 e 10 anos desses refugiados, o Rei reservou um destino particular que foi “O Povoamento das Ilhas de São Tomé e Príncipe”. A partir desta etapa histórica, começa o povoamento destas Ilhas maravilhosas próximas ao Equador.
Como narra o escritor da época medieval, no embarque no porto de Lisboa cerca de 2000 crianças judias foram separadas e arrancadas a força dos seus pais e postas em navios e barcos rumo a São Tomé e Príncipe. Durante a viagem muitas crianças foram estupradas, violentadas assim como seguidas de maus tratos.

Samuel Usque, judeu português, relata no seu livro “Os Sofrimentos e Tribulações de Israel” (1553), que quando os pais viram que a deportação dos seus filhos era inevitável, eles passaram a importância do judaísmo. Fontes relatam que houve vários casos em que as mães se jogaram com os seus filhos ao mar suicidando-se para evitarem a deportação. Ouviam-se muitos gritos e choros das crianças a serem separadas dos pais e sem saberem aonde iriam. Após um ano nestas ilhas, somente 600 crianças permaneciam vivas.
Com efeito a Ilha era considerada um inferno, completamente deserta e para onde foram levados escravos provenientes da África Ocidental, Europeus criminosos e degredados. Usque relata dramaticamente como essas “crianças chegaram as Ilhas inocentes e chegando as florestas de São Tomé, que seriam os seus túmulos, elas foram levadas a costa e deixadas ai sem “compaixom”. Quasi todas foram engolidas pelos grandes lagartos da Ilha e as que ficaram, pois escaparam – se dos répteis, morreram de fome e abandono”. Outras fontes revelam o paludismo também como uma das causas da morte das mesmas.
Estas crianças nostálgico-traumatizadas posteriormente adultas misturam-se com europeus criminosos degredados, escravos revoltosos que chegaram as estas ilhas nos finais do Século XV e princípios do século XVI, constituem a 1ª génese da população São-Tomense. Numa análise simplista sobre esse assunto, até podemos considerar a verdadeira formação da população de São Tomé e Príncipe, somente na primeira metade do Século XVII, visto que as idades muito novas que as crianças tinham na altura, nem eram adolescentes, e na minha óptica a formação autóctone populacional só se verificou, no mínimo, 50-60 anos depois. Tomando como pressupostos tais condicionalismos, a população genuína destas ilhas teve como o seu embrião a miscigenação dos Judeus trazidos, Escravos negros e Europeus criminosos e deportados na primeira fase.
Assim nos finais do século XVII, a grande maioria da população era mestiça, tendo como antecedentes crianças judias nostálgico-traumatizadas, europeus criminosos deportados, escravos revoltosos, e Angolares fugitivos das roças que se escodiam nas florestas da Ilha.
Fontes históricas sobre o povoamento das nossas Ilhas revelam que até ao princípio do século XIX, a grande parte da população de São Tomé e Príncipe era mestiça. Destes Angolares e escravos fugitivos surge o termo “Bufado e ou bofado”, que eram pessoas do sexo masculino que punham trajes femininos figurando-se como mulheres para poderem escapar, como também penetrarem nas roças com maiores facilidades.
Das inúmeras revoltas e rebeliões que tivemos na ilha de São Tomé, após a colonização Portuguesa, independentemente dos trabalhos forçosos dos escravos nos engenhos da cana-de-açúcar está muito relacionada também com o tipo de povoamento que fomos forçados e sem paixões, hoje somos uma civilização recente com aproximadamente 400-450 anos de existência.





Add Comment